
Um dos pioneiros da banda desenhada e desenho humorístico em Portugal teve em Sines o refúgio da sua vida adulta.
Das contas à pintura
Emmerico Hartwich Nunes nasce em Lisboa em 6 de janeiro de 1888, filho de Silvestre Jacinto Nunes e Maria Ferdinanda von Moers Hartwich Nunes (bávara de Regensburg, na Alemanha).
Com apenas 10 anos edita um semanário humorístico - "A Risota", com prosa e desenhos da sua autoria.
Entusiasma-se com a "Paródia" de Rafael Bordalo Pinheiro e torna-se admirador de Leal da Câmara, que é ilustrador da "Marselheza" e da "Corja". Edita um semanário, "Folhas Volantes".
Depois de acabar o curso comercial no Liceu Politécnico, frequenta a Escola Comercial Peixoto, por desejo do pai. Não gosta da experiência.
O pai acaba por inscrevê-lo na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde os mestres são Condeixa e Alberto Nunes.
A conselho de Malhoa, vai para Paris
Silvestre Nunes decide saber sobre a vocação de seu filho e mostra os seus trabalhos a Malhoa. Malhoa aconselha-o a mandá-lo para Paris.
Em 1906, Emmerico Nunes segue para Paris, com uma carta de apresentação de Jorge Colaço dirigida a Ferdinand Cormon, que fora seu professor nas Beaux Arts.
Durante algum tempo, frequenta as aulas de Jean-Paul Laurens da Académie Julien e acaba na École des Beaux-Arts durante quatro anos. Ao mesmo tempo frequenta as academias particulares de Montparnasse.
Executa algumas caricaturas e pinta paisagens.
Na Europa, cresce como caricaturista
Em 1910, viaja a Inglaterra, Holanda e Bélgica, na companhia de Eduardo Viana, Francisco Smith e Manuel Bentes. Participa depois numa exposição de caricaturas na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa.
Em 1911, Emmerico vai para Munique. Estuda na Kunstakademie e frequenta o ateliê de Heimann. Dirige-se à editora do Meggendorfer Blatter com o intuito de lhe vender um álbum para crianças desenhado em Paris. Entra como colaborador efetivo do jornal, com exclusividade até 1916.
Participa na Exposição Livre, em Lisboa, que reúne um grupo de artistas vindos de Paris: Manuel Bentes, Emmerico Nunes, Eduardo Viana, Alberto Cardoso, Francisco Smith, Domingos Rebelo, Álvares Cabral.
Cria em 1915 "Quim e Manecas" no Século Cómico, um suplemento humorístico do jornal O Século. Continua esta série até 1953, oito anos antes da sua morte.
Emmerico Nunes parte para Zurique em Outubro e mantém colaboração com um jornal alemão durante o tempo da guerra. Em Lisboa faz uma exposição sob o título "Arte e Humor".
Em Zurique, trabalha para um ateliê de artes gráficas e expõe diversas vezes paisagens e caricaturas na Kunsthaus.
Regressa ao país em 1918 e, no ano seguinte, expõe com os Humoristas Portugueses em Lisboa.
Casa-se em Sines
Sines é o cenário do seu casamento, em 1920, com Clotilde Edwards Pidwell.
A Editora Schreiber insiste no seu regresso a Munique com o pretexto de que Alemanha tinha voltado à normalidade, mas Emmerico Nunes hesita. Vai a Madrid em março para participar na exposição dos humoristas espanhóis. Os seus trabalhos a óleo são reproduzidos em "La Esfera", assim como outros desenhos a preto e branco publicados em "Nuevo Mundo".
Quando retorna a Lisboa não encontra trabalho, vive apenas do produto das suas produções para o estrangeiro, designadamente para Munique.
Em 1921, está Emmerico Nunes na Alemanha, nasce a sua primeira filha e o artista volta a Portugal. Mas continua a trabalhar para o Meggendorfer Blatter. Praticamente nada recebe pelos seus trabalhos, devido à inflação que ocorre na Alemanha. Acaba por aceitar um lugar como dactilógrafo numa casa comercial.
Em Lisboa começam a publicar-se "O Diário de Lisboa", o "ABC A RIR" (Semanário Humorístico) e o ABC-ZINHO (jornal infantil dirigido por Cottineli Telmo). Emmerico colabora com os três ABC, ainda que continue a executar trabalhos publicitários para o ateliê Hauser, em Berna, na Suíça.
Nazismo trá-lo de volta a Portugal
Em 1924, Emmerico está em Munique. O movimento nacional-socialista começa a alastrar e o artista decide que jamais se conseguiria estabelecer na Alemanha sob tal regime e regressa definitivamente a Portugal. Envia, no entanto, pontualmente, desenhos para a editora J. F. Schreiber de Munique e colabora ao mesmo tempo com "O Domingo Ilustrado" e "Espectro", que tem uma duração efémera.
Em 1926, é instituída em Portugal a ditadura militar e começa a censura à imprensa. Iniciam-se as publicações de "Ilustração", "Magazine Bertrand" com as quais o artista começa a colaborar. Aceita um lugar de desenhador na secção de publicidade da Vacuum e participa no Salão dos Humoristas (Salão Silva Porto), no Porto e no II Salão de Outono da Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa.
Inicia a sua colaboração no semanário infantil suíço "Der Spatz".
Em 1929, ilustra os livros da coleção "Biblioteca dos Pequeninos", que é editada pela Empresa Nacional de Publicidade. A editora J.F. Schreiber de Munique adquire o "Fliegende Blatter" e Emmerico Nunes começa a sua colaboração.
Exposições, crianças, humor, ilustração, arte sacra...
Entre 1930 e 1931, o artista adoece. É despedido da Vacuum e sobrevive vendendo retratos a óleo.
Acaba por arranjar emprego na Secção de Publicidade da Companhia Industrial de Portugal e Colónias. Colabora com o "Zuricher Ilustrierte Zeitung" de Zurique e participa nos salões anuais da Sociedade de Belas Artes.
Em 1935 está em Haia, onde colabora no "Haagscher Courant" durante dois meses e volta de novo a entrar ao serviço da "Vacuum". De manhã trabalha na Portugal e Colónias, à tarde na Vacuum e à noite desenha para "O Senhor Doutor". Restam-lhe os domingos para pintar.
Em 1937, Emmerico Nunes integra a equipa de decoração do pavilhão português na Exposição Universal de França.
Em 1939 colabora também para o pavilhão nacional na Feira Internacional de Nova Iorque.
Ainda numa fase de exposições, em 1940, participa na Exposição do Mundo Português.
Colabora no Semanário "Acção" mas queixa-se de que Portugal não possui um único jornal humorístico. Continua a dedicar-se à pintura e ao retrato e durante toda uma década ilustra uma série de livros para adultos e crianças.
Em 1951, Emmerico Nunes é professor de desenho dos filhos do Conde de Paris. A Agência Geral do Ultramar encarrega-o da realização do Pavilhão do Ultramar para a Feira Popular de Lisboa.
No mesmo ano, organiza a exposição de Arte Sacra Missionária em Lisboa (no claustro do Mosteiro dos Jerónimos) e Pio XII agracia-o com a comenda da Ordem de S. Silvestre.
Em 1952, executa trabalhos de restauro nas Oficinas do Museu Nacional de Arte Antiga.
Expõe na 1.ª Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (criada em 1956) com o óleo "Brooklyn".
Final de vida em Sines
Emmerico Nunes é operado em 1960 e fica com a saúde muito abalada. Ainda executa um painel para a Igreja Matriz de Sines e pinta vários retratos e paisagens.
A 18 de janeiro de 1968, Emmerico Hartwich Nunes morre em Sines.