A escritora Cláudia de Campos é uma das figuras mais "sui generis" de Sines.
Nascida a 28 de janeiro de 1859, filha de Maria Augusta Palma de Campos e de Francisco António de Campos, tem por padrinho de batismo seu avô, Guarda-Mor de Saúde do Porto de Sines, Jacinto José Palma.
Casa em 1875 com Joaquim D’Ornelas e Matos. Ela tem apenas 16 anos e ele 19. O Barão de S. Pedro, José Ribeiro da Cunha, é testemunha de casamento.
Em jovem frequentou o Colégio de Mrs. Kutle, na Rua do Alecrim, em Lisboa. Privou com a mais alta sociedade lisboeta da altura, frequentando a Academia de Ciências de Lisboa e os Salões Literários do Casino.
"Cláudia de Campos era uma mulher feliz, alegre e linda", afirma Maria Amália Vaz de Carvalho no seu diário.
Para além do seu lado de escritora, foi uma intelectual inovadora, ensaísta da condição da mulher.
Escreveu um "Ensaio de Psicologia Feminina", onde analisa Charlotte Brontë, Condessa de Lafayette, Baronesa de Staël, Josephine de Neuville, Rainha da Roménia. Estudou também Edward Thomas, Gibson, Masefield e outros.
A autora de "Ele"

Cláudia de Campos estreou-se em termos literários com um volume de pequenos contos intitulado "Rindo...". Seguiram-se "O Último Amor", "Mulheres", "A Esfinge", "A Baronesa de Staël", "O Duque de Palmela" e o polémico "Ele" ("Elle", na grafia da altura).
A polémica de "Ele" fundamenta-se no facto de o livro tratar locais e personagens que não eram mais dos que os sítios e as pessoas com as quais a autora conviveu em Sines, ainda que lhes tenha atribuído diferentes nomes.
Presume-se que o seu personagem Luís Guedes é Francisco António de Campos, pai da autora; Cléo, é a própria escritora; Frantze é Frank Pidwell; Vasques Bruto é António Arsénio de Campos; José Paulino é João Caetano; Leonor Vasques é Isabel Pidwell; Pulquéria é a mulher de António Arsénio de Campos; Padre Mateus é o Padre Maia, assim como as Pedras Negras são o Pontal da Praia de Sines. O dr. Macedo era, segundo o historiador Arnaldo Soledade, Francisco Luís Lopes, autor de "Breve Notícia de Sines".
Inspirações inglesas
Erudita, interessou-se pelos estudos franceses, alemães e ingleses, tendo deixado um manuscrito intitulado "Shelley", sobre o poeta Percey B. Shelley, amigo de Lord Byron.
Analisou a teoria da "desfamiliarização" de Charlotte Brontë - baseada na "ostranenie" do Formalismo Russo - que afirma que "o propósito da arte é ultrapassar os efeitos mortais do hábito de representar coisas familiares numa forma não familiar".
Morte
Morre a 30 de dezembro de 1916, na Av. Duque de Loulé, 81 (na freguesia de Camões, em Lisboa), vítima de colapso. Tinha 56 anos.
A recepção da obra no seu tempo
"Os aplausos com que foi recebido o "Último Amor", não hão de acurtar nesta obra, «A Esfinge», de índole diversa, menos a sabor do geral dos leitores, porém onde, a meu ver, se assinala vigorosamente o talento incontestável da escritora, que é, já hoje, mais um primor no brasão da literatura feminina do nosso país, onde há florões encantadores. / Familiar com a língua inglesa, desde a infância, conhece a fundo os poetas e romancistas nos quais, às vezes, a par das tempestades de génio, aparece a ironia mordente a acerba, que se não excede, se porventura se iguala.” - Bulhão Pato, no Almanach Bertrand (1900)
"(...) [Elle] esse livro para nós indefinível e cuja leitura fragmentada, por nos ser impossível aguentá-la a seguir, nos custou além de uma longa noite de insónia, uma crise agudíssima de nervos que levou dias a acalmar - esse livro é extraordinariamente complexo... É um livro feito de alma, sim; mas é simultaneamente um livro entretecido de nervos; sendo como é, requintada e sofridamente intelectual, porque faz por assim dizer, a química do sentimento, analisando e decompondo-o, e bem assim o que chamaremos a sua anatomia, esmerilhando-o, desfibrando-o, à ponta de bisturi e a bico de agulha - é também, e é sobretudo, um livro poético, um verdadeiro e sentido poema, o transumpto fiel de uma agonia e o espelho fidelíssimo de uma dor." - Trindade Coelho
"Porque, o que falta a esta escritora de raça, para ser tão grande como as suas irmãs que lá fora são a glória do movimento feminista moderno? Escrever numa língua mais largamente divulgada. Dai a Cláudia de Campos a publicidade dos três idiomas internacionais - o francês, o inglês e o alemão - e vereis sem hesitação e sem esforço, a sua fama igualar, se não exceder a da quase totalidade dos nomes femininos, que a Europa apresenta com orgulho, como as mais preciosas joias da sua coroa literária. São porventura maiores miss Browning, George Eliot, Carlota Brontë, para só falar das mais ilustres, no país que tem sido por excelência, neste século a pátria de eleição dos melhores talentos de mulher? Não, decerto". - Consiglieri Pedroso
"Só há pouquíssimo tempo nos foi dado conhecer pessoalmente a sr.ª D.ª Cláudia de Campos. Visitámos em Sines o seu palacete, e ousámos tomar flores do seu jardim. A dona daquele paraíso estava ausente dali; mas não se carece da presença para se conhecer quem escreve. O estilo é o homem, e o escritor não tem sexo. / A autora do livro "Mulheres" mostra bem ali a sua erudição e o seu fino critério. Na apreciação dos caracteres das suas escolhidas e nos desenhos das suas fisionomias, há figuras esculturais. No livro "Rindo..." coligiu ela os seus esboços de crianças, e nem sempre a rir os firmou no papel. Há traços ali onde a contrariedade se desenha e onde a mulher se revela já nas feições de mimosa criança. / Nos livros "Último Amor" e "Esfinge" apareceu feito e perfeito o grande escritor. Na "Esfinge",. Principalmente, há uma obra que honraria todos os romancistas mais nomeados e mais glorificados que tivessem a fortuna de a assinar como sua. A sr.ª D.ª Cláudia de Campos é um grande talento - eis o nosso ponto de vista". - Thomaz Ribeiro
"É, infelizmente, bem diminuto hoje o número de escritoras portuguesas dignas deste nome, de sorte que a triunfante confirmação, dia a dia mais seguramente acentuada de talentos como o de D. Cláudia de Campos, bem merece da crítica toda a atenção e todo o estímulo. / Nós reputamos este romance "Elle", a melhor obra de quantas a ilustre autora tem até hoje publicado, o que evidentemente para nós denota do seu fino e real talento o caminho progressivo. Há aqui mais clareza, mais concisão, mais nitidez do que na "Esfinge"; as notas da vida são exatas, a impressão e a cor do meio são claras, como iluminadas por um grande sol estival; a maior parte das figuras secundárias tem carácter, distinguem-se, destacam belamente pela sua mancha própria, sendo algumas - como a simpática silhouette do dr. Macedo - encantadora de detalhe, de a propósito e de verdade. E há, então, a protagonista do romance, essa impulsiva e deliciosa pecadora que é Cleo, irregular malgré soi, tão desabusada no proceder como honesta e limpa na alma, que é um admirável e nutrido estudo psicológico, sem uma quebra, sem um desvio, da primeira à última linha lógico e perfeito". - Abel Botelho