O período romano é um dos mais estudados da história de Sines. Com os Romanos, o concelho define-se pela primeira vez como centro portuário e industrial. A baía de Sines, protegida das nortadas, é o porto da cidade de Miróbriga. O canal da Ilha do Pessegueiro é usado para funções portuárias e salga de peixe.
NÚCLEO URBANO DE SINES
O povoamento estável do coração de Sines - zona do castelo - começa com os Romanos. As qualidades da baía - protegida das nortadas - num litoral alentejano com pouco abrigos naturais conferem-lhe interesse portuário. Será a saída para o mar da cidade de Miróbriga, a 17 quilómetros.
Há registos de que Marco Júlio Marcelo, edil mirobrigense (século I DC), investe parte importante do seu dinheiro em embarcações, possivelmente para viagens de longo curso entre Sines e algum porto mediterrânico. O interesse da baía não é, portanto, marginal.
Hipótese toponímica
Uma das hipóteses de origem da toponímia de Sines deriva, aliás, do étimo latino "sinus" (que significa baía ou seio - a configuração do cabo visto do alto do Monte Chãos), o que quer dizer que o interesse da povoação provém da utilização da sua enseada.
O Museu de Sines tem dois cepos de âncora (sécs. I ou II DC), encontrados em 1967, a 150 metros da costa de São Torpes [mergulhadores Carlos Manafaia e Joaquim Manuel Francisco], que testemunham o curso de barcos romanos pela agressiva costa alentejana.
É possível que o mar de Sines também fosse interessante pela abundância do molusco "thais haemastona", de onde se extraía a púrpura, utilizada em tinturaria.
As marcas de cerâmica estrangeira ("sigillata" - terra sigilada: espécie de argila) encontradas pelos arqueólogos dentro e fora do castelo têm sido utilizadas para definir a extensão do perímetro comercial em que Sines se incluía - até à Hispânia? Até à Itália? Até à África (Tunísia)? Há exemplares no Museu de Sines.
Centro de produção de salga de peixe
Mas, no século romano de Sines - I DC -, a função comercial é complementada pela industrial.
Em 1961, José Miguel da Costa, em escavações no exterior da cerca do castelo de Sines, localiza fábricas de salga - cetárias - e um forno de cerâmica (onde se terão produzido ânforas para o envase dos produtos salgados).
Na década de 1990, Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares procedem a uma nova escavação e a um trabalho mais sistemático sobre as ruínas.
Pela maior proximidade aos pesqueiros, a Ilha do Pessegueiro vai substituindo Sines na produção de salgas, à medida que o século II avança.
Hipóteses sobre o centro urbano
As pedras usadas no castelo de Sines denunciam os povos que se instalaram naquele lugar. Em 1961, José Miguel da Costa extraiu das suas muralhas várias pedras da época romana. Uma delas, o pedestal de uma estátua de Marte, permite esboçar a fisionomia da urbe e avaliar da sua importância.
O pedestal, em mármore, tem uma inscrição muito erodida que indica que as estátua foi mandada erguer por disposição testamentária de um sacerdote encarregado do culto imperial.
De acordo com as deduções de José d’Encarnação, teria de haver em Sines um espaço público onde a estátua fosse apresentada - talvez um templo, sobre a qual terá assentado, posteriormente, a basílica visigótica; talvez uma praça, digna e movimentada o suficiente para nela ser mostrada a estátua do deus da guerra, de que o imperador era avatar.
A necrópole romana pode ter-se situado no centro medieval de Sines, a atual praça Tomás Ribeiro. No espólio do Museu de Sines existe uma lápide encontrada no castelo.
Uma segunda necrópole (de incineração, no caso) foi encontrada na Feiteira de Cima. Muito danificada pela lavoura, não teve exploração arqueológica. Situa-se no Monte Chãos, o agro da Sines romana, onde os patrícios tinham as suas "villas" e terras de cultivo.
Na courela da Quitéria, Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares sondaram uma "villa" do século I muito destruída, onde ainda encontraram restos de calçada e de um hipocausto (forno de aquecimento da casa ou das termas).
PORTO NA ILHA DO PESSEGUEIRO
A partir de meados do século I DC, a Ilha do Pessegueiro, que não tinha utilização havia dois séculos, volta a ser ocupada. Tal como a baía de Sines, é um dos poucos portos naturais do litoral alentejano. No verão, para subir a costa, sujeita a nortada, os Romanos têm de aproveitar todos os apoios.
A ilha - ou o seu trunfo portuário, o estreito canal que a separa do continente - tem vantagens sobre Sines: não é tão exposta a sul e tem um melhor acesso ao "hinterland" alentejano (Sines está limitada pela Serra de Grândola). A Ilha do Pessegueiro está, nesta primeira fase, ligada a Garvão (Arandis).
Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares justificam o abandono da ilha entre meados do século I AC e meados do século I AC com o declínio da navegação atlântica provocada pela instabilidade em Roma. É também o período da febre mineira no interior alentejano - mas o porto fluvial de Mértola deve ter sido privilegiado na escoagem do minério.
Pela ilha terá saído algum minério de Aljustrel. Mas sobretudo do Cercal (a 7km), onde há uma mina de ferro-manganês. Foi encontrada uma oficina de fundição no Pessegueiro.
Centro de fabrico de salgas
A reocupação da ilha integra-se num movimento de "atlantização" do sul da Lusitânia: Olisipo (Lisboa) substitui Scallabis (Santarém); Caetobriga (Setúbal-Tróia) substitui Salacia (Alcácer do Sal). Há um aumento da exploração dos recursos marinhos. A Lusitânia passa a concorrer com a Bética na exportação de peixe salgado.

As salgas da ilha (ver foto) são fundadas no século II - o que coincide com o declínio das de Sines. A partir daí, a função comercial mantém-se, mas a industrial ganha relevo. A diminuição das marcas de "terra sigillata" (cerâmica) encontradas indica uma desaceleração das trocas. O Pessegueiro torna-se satélite de Sines.
No século III e primeira metade do século IV, a ilha especializa-se como centro de produção de salgas. Há pesqueiros próximos e o seu acesso é fácil. A sardinha é a principal matéria-prima, mas não se conhece ao certo que tipo de salga é feito.
A pequena unidade industrial pode ter dependido de uma "villa". O produto industrial complementaria o agrícola.
FONTES DE INFORMAÇÃO
A principal fonte deste texto é "Ilha do Pessegueiro - Porto Romano da Costa Alentejana", de Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, mas também deve ler-se Arnaldo Soledade e um texto de José d'Encarnação publicado no jornal DISTRITO DE SETÚBAL ("No tempo dos Romanos, Sines teve uma estátua do deus Marte").