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Breve História do Complexo Industrial 
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No início da década de 70 dá-se um choque a todos os níveis da vida de Sines. O governo de Marcello Caetano decide instalar aqui um grande complexo portuário-industrial. Da paisagem à estrutura da população, da economia ao ambiente, o concelho enfrenta desafios com uma dimensão e uma natureza completamente novas.


O COMPLEXO


A escolha de Sines


Aproveitando a fase de expansão que o Ocidente vivia no fim da década de 60, o governo de Marcello Caetano resolve criar no sul do país um grande complexo portuário e industrial, com a intenção de dotar Portugal de autonomia em setores fundamentais como a energia e a transformação de matérias-primas.
Como objetivo genérico, colocava-se a criação de um polo de desenvolvimento a sul do Tejo.


As unidades a ser instaladas nesse grande complexo eram, nomeadamente, uma refinaria, cujo objetivo seria a substituição gradual da de Cabo Ruivo, uma petroquímica, uma siderurgia e outras unidades de capital intensivo. Esse polo deveria gerar uma dinâmica de desenvolvimento integrado, a partir das facilidades criadas pelas infraestruturas instaladas e pelo incremento de novas atividades associadas às indústrias básicas do local. Colocava-se a hipótese de transformar localmente as pirites alentejanas.


Era óbvio que esse complexo se devia situar junto de um porto. Depois se ponderar opções como Alcochete, Setúbal e até Sagres, decidiu-se por Sines, devido às águas profundas que detinha (ideais para a atracagem de barcos de grande calado), à favorável orientação do litoral e à própria localização geográfica do cabo. Sines tinha condições ótimas de concorrência para o tráfego de redistribuição de ramas para a Europa.


O facto de o complexo vir a incidir maioritariamente em terrenos rurais pobres, cuja expropriação teria valores de indemnização muito baixos, acrescia ao número de vantagens competitivas.


Sines é escolhida.

Para o planeamento e coordenação da criação das infraestruturas na zona, Marcello Caetano cria o Gabinete da Área de Sines (nasce em 11 de junho de 1971), instituto público dependente diretamente do presidente do Conselho.


O "Elefante Branco"

Ainda se está na fase da criação das infraestruturas quando um acontecimento abala o projeto nas suas fundações.


Em 1973, com a guerra do Yom Kyppur, surge a grande crise do petróleo, o que dá origem à modificação da conjuntura internacional e em particular à crise dos setores ligados ao petróleo. O crude aumenta quatro vezes de preço e a rentabilidade da refinaria é posta em causa. A reabertura do Canal do Suez acentua o problema, pois contribui para tornar obsoletos os grandes petroleiros que o complexo de Sines estava preparado para receber.

Porto de Sines


Este e outros acontecimentos (como a destruição do porto de abrigo, em 1978) fazem com que o complexo não se consiga afirmar na escala inicialmente prevista e viva em constante incerteza ao longo dos anos 80, quando é apelidado de "elefante branco".


Com as infraestruturas concluídas, o Gabinete de Área de Sines é extinto formalmente em 1988, sendo as suas funções, pessoal e património transferidos para outros organismos do Estado e para as autarquias.


É criada a PGS, Sociedade de Promoção e Gestão de Áreas Industriais e Serviços, com o objetivo de gerir os terrenos do complexo entregues pelo Estado ao IAPMEI e para, genericamente, aproveitar as potencialidades e infraestruturas que apesar dos sobressaltos não tinham deixado de existir e serviriam de base para relançar o complexo em termos industriais (a entidade herdeira da PGS, entretanto extinta, é hoje a aicep Global Parques).


Relançamento


No final dos anos 90 e início do século XXI assiste-se a um relançamento do complexo, em especial, na componente portuária, com a construção de um porto de contentores (Terminal XXI, na foto) e de um terminal de gás natural liquefeito.

Terminal XXI


A dinâmica atual da plataforma industrial de Sines pode ser seguida na área Negócios deste site.


IMPACTO NA POPULAÇÃO


A instalação do complexo modificou profundamente a paisagem humana do concelho.

Explosão demográfica


Nas décadas de 50 e 60, os concelhos de Sines e Santiago do Cacém tinham perdido um quarto da população, devido em grande parte ao fenómeno da emigração para os grandes centros e para o estrangeiro.


A implantação do empreendimento torna Sines num concelho em expansão demográfica (situação que ainda hoje o distingue da maioria dos concelhos alentejanos).

Só entre 1972 e 1981, a população da área de Sines aumenta 92 por cento, impacto conjugado da imigração (cujo grande surto se deu entre 1972 e 1979) e do rejuvenescimento (maiores taxas de fecundidade e natalidade, menor taxa de mortalidade) por ela introduzido.


O acréscimo populacional deu-se nos centros urbanos, em contraste com o despovoamento rural devido à atração urbana e às expropriações.


A nova população é uma população maioritariamente masculina composta por técnicos (vindos de Lisboa e da zona de Setúbal) e operários não qualificados (originários do interior do concelho e do Alentejo).

Muitos destes operários têm ocupações temporárias na construção das infraestruturas do complexo e não chegam a contribuir verdadeiramente para um acréscimo da população residente.


É ainda de destacar, a partir de 1974, a vinda de um contingente importante de população proveniente de África (portugueses regressados das ex-colónias e cabo-verdianos).


Setor primário perde peso


O aumento de população é acompanhado por uma total inversão da distribuição da população ativa pelos diferentes setores de atividade.


O setor primário, o mais importante até 1970, com uma atividade predominantemente agrícola de trigo familiar (à exceção da vila de Sines e da aldeia de Porto Covo, onde a atividade principal era piscatória) cede a sua posição ao sector secundário em conjunto com o terciário, embora nesta primeira fase o comércio e serviços não tenham acompanhado o desenvolvimento industrial.


De acordo com dados do GAS publicados no 1.º Congresso do Alentejo, o setor I ocupava 54% da população ativa em 1972, mas apenas 27% em 1981. Já o setor II cresceu de 18 para 38%. O setor III passou a ocupar 45% da população ativa em 1981, quando em 1972 significava apenas 28% da força de trabalho.


Condição de vida


A instalação do complexo de Sines foi traumática para muitos sineenses, especialmente para os pescadores (no que toca à pressão ambiental sobre os recursos marítimos) e os pequenos proprietários agrícolas. Mas também houve ganhos, em particular, no crescimento do nível médio dos rendimentos.


O grupo que talvez mais tenha sofrido com o empreendimento foi o dos pequenos e médios proprietários agrícolas cujas terras foram expropriadas para a construção das infraestruturas.


O dinheiro recebido com as indemnizações não chegava normalmente para comprar novas terras e os proprietários de outrora viram-se no estatuto mais precário de trabalhadores por conta de outrem.

Parte dos expropriados continua a reclamar restituição de terras não utilizadas e novas compensações.


Os trabalhadores rurais (não proprietários) que saíram do campo para trabalhar na construção do complexo também se viram muitas vezes em situações difíceis. Quando a construção acabou, sem terras para onde regressar, ficaram sem o que fazer.


A estrutura urbana também se ressentiu. A vila de Sines recebeu a maior parte da nova população. O centro urbano de Santo André, inicialmente previsto para a satisfazer as necessidades habitacionais geradas pela implantação do complexo, subequipado e dependente dos outros centros para abastecimento de bens e serviços, não manifestou o poder de atração esperado.


Em Sines, o aumento da população não foi acompanhado pelo aumento das novas construções. Em 1976, 43,5% das famílias viviam em situação de sobrepovoamento. As rendas de casa eram altas. Rulotes e casas de madeira substituíram parte da habitação que falta.

Um dos símbolos mais duradouros dessa pressão demográfica foi a utilização pelo GAS do célebre Paquete Infante D. Henrique (ver foto) como alternativa de alojamento.

Paquete Infante D. Henrique


A partir de 1980, com a conclusão da construção da refinaria e do complexo petroquímico, paralelamente ao novo impulso dado a Santo André, diminuiu a pressão populacional sobre a vila de Sines.


Nas décadas de 80 e 90, nomeadamente pelo dinamismo do poder local, a situação de Sines a nível de habitação, ordenamento, infraestruturas e saneamento básico conseguiu reequilibrar-se.


Mas mau grado os muitos conflitos e desequilíbrios, o impacto do complexo na qualidade de vida em Sines teve aspetos positivos.


Além dos horizontes abertos pela chegada de pessoas de outras origens, há o registo mais prosaico do aumento nos rendimentos médios.


Entre 1972 e 1976, deu-se uma quadruplicação dos rendimentos médios mensais devido à criação de novos empregos mais bem remunerados. Os salários médios na vila de Sines triplicaram no mesmo período.


No entanto, a instabilidade do mercado de trabalho e o grande número de empregos temporários provocou algumas situações de expetativas defraudadas.

Adquiriram-se hábitos que deixaram de se poder manter face ao desemprego, principalmente quando o custo de vida era o mais alto de toda a região.


Ambiente


As transformações originadas pela instalação do complexo industrial começaram por se operar na própria paisagem. De um território com reduzidas marcas da intervenção do homem passou-se para um território reconfigurado por uma intensiva presença industrial.


A poluição foi, ao longo das décadas, a grande fonte de conflito entre a população (aliada ao poder local) e o Gabinete da Área de Sines / Estado central.


Ideias como o aterro da baía de Sines e a transferência do porto de pesca para Vila Nova de Milfontes motivaram desde o início o levantamento de vozes pela preservação da vila e da costa de Sines com as suas características e dignidade essenciais. Júlio Gomes da Silva e Antunes da Silva foram os dois publicistas que na década de 70 mais se fizeram ouvir sobre esta questão.


É na década de 80 que ocorrem os problemas mais graves a nível ambiental. Acidentes como a explosão do petroleiro "Campeón" ao largo de Sines (15 de agosto de 1980) e o derrame de crude do navio "Marão" (hulho de 1989) têm grande impacto emocional na população e na própria economia da região (caso do derrame).

Greve Verde


Em 1982, Sines realiza a primeira "Greve Verde" do país (na foto). Na sequência de descargas na costa norte de Sines, a 28 de maio, os trabalhadores de Sines paralisaram totalmente a atividade económica da vila. Uma dúzia de dias depois (8 de junho) os pescadores boicotam o porto industrial.


Em 1995 (27 de novembro), no seguimento de um novo derrame registado em 1990 e da repetição dos problemas com descargas poluentes, os pescadores paralisaram a frota pesqueira. Pescadores e citricultores de Sines e Santiago do Cacém juntaram-se para exigir do governo indemnizações por prejuízos sofridos na pesca e na queda de toneladas de fruta.


Em 1980, a Câmara Municipal de Sines tinha sido a primeira do país a embargar uma obra do Estado quando tentara impedir que se construísse a central termoelétrica da EDP em S. Torpes.


No final da década de 90, esteve ao lado da população na luta contra a instalação de uma unidade de incineração de lixos tóxicos no concelho.


Ver na área Ambiente do site as lutas travadas no século XXI pela defesa do ambiente e da população.


FONTES DE INFORMAÇÃO


O texto do site foi construído de raiz a partir, sobretudo, da imprensa contemporânea dos eventos. Além da imprensa, consultou-se os Estudos Preliminares do Plano Diretor Municipal, elaborados pela Hidrotécnica, fundamentais para a compreensão do impacte demográfico e sociológico do complexo. Todos os documentos estão disponíveis para consulta na Biblioteca Municipal de Sines.

Para a realização de trabalhos históricos sobre este período, consulte também a a biblioteca de referência existente no Arquivo Histórico Arnaldo Soledade.

 Extracto de vídeo sobre instalação do complexo

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